Rede dos Conselhos de Medicina

palavra do presidente – telemedicina


QUER SABER MAIS DO QUE O DOUTOR?

Já vai longe o tempo em que, quando alguém questionava alguma prescrição ou conduta médica, ou quando o vizinho dava uma orientação, o próprio interlocutor leigo dizia: “Quer saber mais do que o doutor?”

Em tempos atuais, de acesso imediato a informação na palma da mão, corremos perigo de alguém dizer: “Esse médico quer saber mais que o ‘Dr. Google’?”

Muitos pacientes (ou seus pais / responsáveis) querem, umas vezes por mera comodidade, outras pelo hábito já instalado da consulta aos sites, resolver seus problemas de saúde pelo meio eletrônico, através de mensagens para o médico por aplicativos de celulares. Essa conduta agiliza o acesso e a resposta, porém envolve perigos diversos para os dois principais envolvidos, o médico e o paciente, como a falta de um vínculo mais sólido entre os dois, prejuízos ao diagnóstico mais preciso, terapêutica inadequada, quebra do sigilo profissional, dentre outros.

Em nosso país, prudentemente, o atendimento médico tem que ser presencial, ou seja, o médico tem que examinar o paciente e, a partir daí, tomar as providências necessárias (art. 37 do Código de Ética Médica), não sendo vedado tirar dúvidas desse mesmo paciente pelo meio digital, com relação ao motivo da consulta, após esse contato inicial (Parecer CFM nº 14/2017). Essas duas disposições normativas não permitem o atendimento médico apenas com o uso de um dispositivo tecnológico, sem a relação médico-paciente física e pessoal.

Sob a ótica do paciente / usuário, o teleatendimento se justifica, muitas vezes, pelo distanciamento que alguns profissionais estabelecem em relação ao alvo de sua atenção, o paciente, visto que muitos argumentam, infelizmente, que “o doutor nem olhou para mim” quando atendidos presencialmente, caracterizando relação médico-paciente precária e incabível em nossa atividade. Entretanto, atendimento por WhatsApp (mídia mais utilizada) não caracteriza, de modo algum, telemedicina.

O conceito de telemedicina tem que envolver elaboração de prontuário para cada atendimento, com bom nível de segurança no armazenamento e transmissão de dados, boa qualidade de imagem, tecnologia de comunicação de alta velocidade em todo o Brasil (inclusive para os remotos interiores da Amazônia), etc. A sua normatização exige que a classe médica, como um todo, seja ouvida.

O assunto precisa ser normatizado para evitar que o médico, nos lugares mais longínquos e sem acesso imediato a um especialista, seja substituído, pelos gestores, por um profissional de saúde que buscará os dados clínicos e os enviará ao “telemédico” que estará em um grande centro, bancado por uma grande empresa exploradora do trabalho médico. Fixar o médico no interior exige investimento em infraestrutura para o bom exercício da Medicina, garantia de contratualização adequada, acesso a atualização profissional, investimento em educação fundamental e secundária que permita estar perto dos filhos e, além de outros, exige criar uma carreira que permita a progressão e remuneração adequada.

A tele-consulta sem o médico ao lado do paciente reforçaria a ideia de que o “Dr. Google” e seus congêneres são mais próximos, imediatos e práticos, podendo resultar em aplicativos que se proponham a resolver a maioria dos problemas de saúde, prescindindo do médico. Para muitos, o “Dr. Google” e o “Dr. WhatsApp” já sabem mais do que o doutor.

 

Belém, 22 de abril de 2019

Manoel Walber dos Santos Silva

Presidente do CRM-PA